Dora: a jovem que interrompeu Freud

Em 1900, um pai levou a filha de dezessete anos ao consultório de Freud para que ele lhe tirasse da cabeça certas “ficções”. Três meses depois, ela foi embora. O relato que Freud escreveu sobre ela é um dos textos fundadores da psicanálise. Relido hoje, é também o retrato de um analista iniciante, tão ocupado em provar suas teorias que deixou de escutar o que ela tinha a dizer.
Moeda de troca
“Dora” é o nome que Freud deu a Ida Bauer, moça de uma família rica de Viena. A história envolve dois casais. O pai de Ida tinha um caso com a Sra. K., mulher de um amigo da família. Ida, adolescente, cuidava dos filhos dos K. e era confidente da Sra. K.
Aos treze anos e meio, Ida é beijada de surpresa pelo Sr. K. Dois anos depois, à beira de um lago, ele a corteja com as mesmas palavras que já tinha usado com a governanta da casa. Ida responde com um tapa e conta tudo aos pais. O Sr. K. nega e diz que ela inventou, que lia livros eróticos demais. O pai prefere acreditar nele. Assim, o arranjo entre os dois casais continua intacto, e Ida entende o preço: tinha sido entregue ao Sr. K. em troca da tolerância dele com o caso do pai.
Ida adoece, deixa uma carta de despedida, desmaia no meio de uma discussão. É então que o pai, ele mesmo ex-paciente de Freud, a leva ao consultório.
Um médico que se justifica
Antes de contar o caso, Freud escreve um prefácio inteiro para se defender. Diz que publicar é um dever com a ciência e garante que protegeu a paciente, escolhendo uma história passada longe de Viena. A história, sim. A paciente tinha nascido na mesma rua do consultório.
Freud teme ser lido como quem lê um romance, uma fofoca. Não deixa de ter razão: o texto conta dois casos. O de Dora e o do próprio Freud, que precisa confirmar suas teorias e vai preenchendo cada lacuna do relato dela com as próprias ideias. Ele se compara a um arqueólogo que reconstrói ruínas incompletas e promete indicar sempre onde termina o que encontrou e começa o que imaginou. Essa promessa ele não vai cumprir.
“Qual é a sua parte nisso?”
Dora chega acusando: o pai a usava, o Sr. K. a assediava, todos fingiam não ver. Tudo verdade, e Freud não contesta. Mas faz uma pergunta que muda o rumo: qual é a sua parte nisso? Durante anos, Dora também ajudou a manter o arranjo, cuidando dos filhos dos K. e facilitando os encontros do pai.
Décadas depois, o psicanalista Jacques Lacan viu nesse gesto o coração do trabalho analítico: não discutir se a queixa é justa, mas mostrar a quem fala o lugar de onde fala. Aqui Freud acerta.
O sonho da caixinha de joias
No meio do tratamento, Dora conta um sonho que se repetia: a casa pegava fogo, o pai a acordava, e a mãe queria voltar para salvar sua caixinha de joias. O pai se recusava: não ia deixar os filhos queimarem por causa dela.
Puxando os fios, Dora lembra que, certa vez, acordou com o Sr. K. de pé ao lado da cama. No dia seguinte, a chave do quarto tinha sumido, e ela passou a se vestir às pressas. O sonho dizia, noite após noite: preciso sair dessa casa. E o pai aparecia como protetor, justamente o pai que, na vida real, a deixava exposta.
A caixinha de joias, lembra Dora, tinha sido presente do Sr. K. Freud lhe diz que a expressão era um modo popular de falar do sexo feminino. Ela responde: “Eu sabia que o senhor ia dizer isso.” Para Freud, é a prova de que ela sabia, no fundo. Mas a frase também pode ser ouvida de outro jeito: ela sabia o que ele ia dizer porque ele já tinha decidido dizer.
Dias depois, Dora acrescenta que, ao acordar do sonho, sentia cheiro de fumaça. Freud liga a fumaça a três fumantes: o Sr. K., o pai e ele próprio. E conclui que, em alguma sessão, ela desejou um beijo seu, e que por isso pensava em deixar o tratamento. Anos mais tarde, uma prima contaria que Dora dera outra razão: ele levantava questões demais, e ela queria pôr um fim nisso.
O que Freud não escutou
Freud está convencido de que Dora ama o Sr. K. Chega a perceber que ela é muito ligada à Sra. K., mas para aí. Lacan aponta o que faltou: o que Dora procurava na Sra. K. não era uma rival nem um amor, mas uma resposta à pergunta “o que é ser uma mulher?”, algo além de ser moeda de troca entre os homens da casa.
A pergunta já estava no sonho, discreta: a caixinha de joias era da mãe, a primeira mulher. O arqueólogo que prometia indicar onde sua construção se sobrepunha ao que encontrou não indicou. Pôs o Sr. K. onde estava a Sra. K. Só depois, num posfácio, Freud admite o erro: a ligação com a Sra. K. era a corrente mais forte da vida psíquica de Dora.
Duas versões de Dora
Em 1922, Ida, já adulta, procurou o psicanalista Felix Deutsch e se apresentou a ele como “a Dora”. Em 1957, Deutsch publicou um texto em que lia a vida dela como confirmação do que Freud previra, e citava um informante para quem ela tinha sido uma das histéricas mais repulsivas que ele já conhecera. Foi essa versão que prevaleceu por décadas: a de uma mulher amarga e vingativa.
Há outra. Segundo a família, Ida casou-se, teve um filho e nunca mais apresentou os sintomas de antes. Em 1938, fugiu dos nazistas e foi para os Estados Unidos, onde morreu em 1945. E chegou a ser parceira de bridge da Sra. K.
Freud tinha avisado no título: era um fragmento. O resto, Ida jogou sem ele.
Este texto é uma adaptação de uma apresentação feita no seminário sobre o caso Dora na Escola Freudiana de Belo Horizonte – Iepsi.
Para ler mais
FREUD, Sigmund. Fragmento de uma análise de um caso de histeria (caso Dora) (1905). In: Histórias clínicas: cinco casos paradigmáticos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.
DEUTSCH, Felix. Uma nota de rodapé para “Análise fragmentária de uma histeria” de Freud. Jornal de Psicanálise, São Paulo, v. 55, n. 102, 2022.
LACAN, Jacques. Intervenção sobre a transferência (1951). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.