O infamiliar

Há experiências que reconhecemos de imediato e que, ainda assim, nos parecem estranhas. “Isso me é familiar… apesar de estranho.” É dessa ambiguidade que Freud trata em Das Unheimliche, de 1919, traduzido como O infamiliar na edição da Autêntica. Como observam Gilson Iannini e Pedro Heliodoro Tavares, a palavra carrega os dois lados: o íntimo e já conhecido, e ao mesmo tempo o estranho, o inquietante, o que deveria ter permanecido oculto, de nós e em nós mesmos.
Para Freud, o infamiliar não vem de fora. É o que um dia circulou no familiar, foi recalcado e retorna como se fosse alheio, como uma aparição. O efeito é de desarranjo, uma desorientação que surpreende o sujeito justamente onde ele se julgava em casa.
A análise é um lugar onde esse estranho pode ser dito. O infamiliar não desaparece. Não se trata de devolvê-lo ao esquecimento, nem de domesticá-lo com um sentido que o explique de uma vez. Trata-se de construir, a partir dele, um saber-fazer com aquilo que nos é mais íntimo e, por isso mesmo, mais desconhecido.
Marguerite Duras, em Escrever, diz de outra forma:
“A escrita e o desconhecido. Antes de escrever, nada se sabe do que se vai escrever. E em total lucidez. É o desconhecido de si mesmo, de sua cabeça, de seu corpo.”Marguerite Duras
Uma análise também se escreve assim, sem saber antes o que vai ser dito. Vai-se escrevendo esse desconhecido que, no fundo, é familiar.
Referências
DURAS, Marguerite. Escrever. Tradução de Rubens Figueiredo. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
FREUD, Sigmund. O infamiliar [Das Unheimliche]. Tradução de Ernani Chaves e Pedro Heliodoro Tavares. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. (Obras Incompletas de Sigmund Freud).