Por que entender não basta

Antes de aprender a falar, cada um de nós foi banhado por palavras: a voz de quem cuidava de nós, os apelidos, as frases repetidas em casa, o tom de uma bronca, uma canção. Muito antes de entendermos o que significavam, essas palavras já nos marcavam, pelo som, pelo ritmo, pelo que tocavam no corpo.
Lacan chamou de lalíngua essa camada da língua feita mais de som e afeto do que de sentido. É ali que se alojam muitos de nossos sofrimentos: numa palavra que dói sem que se saiba por quê, num nome que pesa, numa expressão que sempre retorna.
Por isso, em análise, compreender não basta. Explicar o sofrimento raramente é suficiente para desfazê-lo. O analista escuta também o que ressoa: um equívoco, uma palavra que pode ser ouvida de dois modos, um termo que insiste de sessão em sessão.
Quando uma palavra soa de outro jeito, algo se desloca. O que estava preso a um único sentido se abre. Não é uma nova explicação que alivia, mas um novo modo de se ouvir.
Uma análise é, assim, um trabalho artesanal com a língua de cada um, essa que falamos sem saber tudo o que dizemos.