Uai, respirando

Numa conversa entre amigas, alguém perguntou como era possível ter algum respiro cuidando das crianças. Respondi como boa mineira: “uai, respirando”. A resposta, óbvia para mim, não era óbvia para mais ninguém. A diferença me fez pensar: que espaço damos aos nossos filhos? Sempre a postos, apostamos neles como sujeitos?
O que escuto no consultório é que o imperativo da época é o excesso. Pode ser excesso de ideal: tudo deve ser lindo e, se não é, a culpa é da mãe que não seguiu o último manual. Pode ser excesso de real: a maternidade como sacrifício, concessão, exaustão. São faces da mesma moeda. Nas duas, a mulher se apaga, e a maternidade ultrapassa as medidas do humano, feito justamente daquilo que falta e falha.
É nesse excesso que as crianças crescem, sem espaço para experimentar, errar, desejar, porque nós não nos damos esse espaço. A criança está muito mais atenta ao modo como nos transformamos do que a uma mãe ou um pai prontos, que, aliás, não existem.
Se queremos filhos implicados com o próprio desejo, talvez seja preciso começar nos implicando com o nosso. Abrir espaço para nós, como mulheres, para poder apostar neles, como sujeitos.